Resultados

 

            Dos 741 artigos obtidos inicialmente (733 na pesquisa efectuada na Medline e 8 fornecidos por um especialista), foram excluídos, numa primeira fase, 706 uma vez que os títulos e abstracts não se relacionavam directamente com os objectivos previamente definidos. Dos 35 artigos seleccionados, foram excluídos 22 (7 por impossibilidade na sua obtenção e 15 por não respeitarem os critérios de inclusão/exclusão). Foram, então, incluídos na revisão sistemática 13 artigos, tal como se pode verificar na Figura 1.

 

Figura 1. Diagrama representativo da selecção dos artigos incluídos na revisão sistemática.

 

            Na Tabela 1, encontra-se uma síntese dos 13 artigos que foram incluídos na revisão sistemática (numerados de acordo com as referências).

 

Estudo nº

Tipo de estudo

N.º de Participantes / Proveniência

Tempo de Seguimento

Variáveis de Resultado

Resultados

1

Ensaio clínico

randomizado

22 pacientes *

 

10 anos

 

Gastrite Atrófica, Metaplasia intestinal

 

Durante o período de 7,5 anos que antecedeu a terapia de erradicação, não se observaram alterações significativas nos valores médios de atrofia e metaplasia intestinais, nem nos níveis médios de concentração de pepsinogénio I. No entanto, ocorreu um melhoramento significativo nos níveis médios histológicos de inflamação (de 2.2 a 0.5), de atrofia (de 2.2 a 1.2) e metaplasia intestinal (de 1.6 a 1.1) na mucosa do corpo após a erradicação da H. pylori. Por outro lado, o nível médio da concentração de pepsinogénio I aumentou de 16.3 para 25.7 mg/L,( P= 0.0071 , segundo o teste de Wilcoxon), após terapia de erradicação.

 

3

Coorte

 

84 pacientes de clínicas de Tucson, Arizona (EUA) e da Comunidade Hispânica de Pima County, Arizona (EUA)

 

3, 12, 18, 24 e 48 meses após o tratamento

metaplasia intestinal

Embora a erradicação da infecção de H. pylori possa levar a um decréscimo na quantidade de metaplasia intestinal gástrica em alguns indivíduos, a lesão pode ser detectada na maioria dos indivíduos após 3 anos de seguimento. Estes dados sugerem que a terapia contra H. pylori pode não eliminar o risco de cancro gástrico uma vez desenvolvida metaplasia intestinal.

4

Coorte

40 pacientes *

6 a 12 meses

Gastrite atrófica. Metaplasia intestinal

 

Após a erradicação (entre 6 a 12 meses), verificou-se um desaparecimento de atrofia do corpo em 8 dos 40 pacientes. Nos restantes 32, esta permaneceu substancialmente imutável (2.03 ± 0.12 vs. 1.83 ± 0.15). Nos 8 pacientes referidos com atrofia corporal revertida, a gastrinemia diminui significativamente relativamente aos valores pré-tratamento (265 ± 59.9 pg/mL vs. 51.8 ± 6.04 pg/mL), e basal e estimulada secreção de ácido aumentou substancialmente após cura. Nos restantes 32 pacientes, a gastrinemia apresentou-se similar aos valores iniciais (pré-tratamento) (457 ± 76.04 pg/mL vs. 335.1 ± 58.8 pg/mL). Durante o “follow-up” do estudo (21-25 e 32-70 meses), os 8 pacientes com a atrofia corporal revertida continuaram com gastrinemia normal (35.3 ± 10.1 pg/mL vs. 38.5 ± 8.8 pg/mL), mas os 19 pacientes com atrofia corporal contínua e metaplasia intestinal, os valores mantiveram-se substancialmente iguais.

 

5

Coorte

 

116 pacientes *

22 meses

 

Gastrite atrófica, Metaplasia intestinal

 

Os resultados sugerem que a atrofia da mucosa gástrica pode ser diminuída, pelo menos na região do corpo, após a cura da infecção por H. pylori.

6

Coorte

12 pacientes que foram sujeitos a uma gastrectomia distal no Hospital Daini

2 anos

Lesões  das mucosas

 

A taxa de erradicação foi de 75% e 83,3% entre 1 e 6 meses após a terapia, respectivamente.
O eritema diminui significativamente após a terapia (P = 0,038) de 1,67 +/- 0,65 para 0,92 +/- 0,90 e 0,68 +/- 0,65, respectivamente para 1 e 6 meses de terapia. 
A inflamação histológica tem tendência para diminuir com o tempo, sendo que era de 1,92 +/- 0,52 antes da terapia e de 1.50 +/- 0,52 e 1,33 +/- 0,49 após 1 e 6 meses de terapia, respectivamente. A actividade histológica era de 2,17 +/- 0,72 antes da terapia de erradicação, mas 1 e 6 meses depois da terapia, diminui significativamente (P = 0,0001) para 0,25 +/- 0,45 e 0,08 +/- 0,65, respectivamente.

 

7

Coorte

54 pacientes *

5 anos

Gastrite Atrófica, Metaplasia intestinal

 

Atrofia gástrica e metaplasia intestinal foram reversíveis em alguns pacientes.

A atrofia decresceu em pacientes com terapia da erradicação Helicobacter pylori bem sucedida no corpo do estômago e no antro.

Os níveis da metaplasia intestinal também decresceram no corpo e no antro.

 

8

Ensaio clínico

163 pacientes  de uma clínica de Gastroenterologia em Tóquio

1 ano

Atrofia gástrica e metaplasia intestinal

 

Dos 115 pacientes nos quais se erradicou H. pylori a inflamação e os níveis de actividade dos neutrófilos decresceram no espaço de 1 a 3 meses. A atrofia glandular no corpo e metaplasia intestinal no antro diminuiu no espaço de 12 a 15 meses. 89% dos pacientes que sofriam de atrofia glandular antes do tratamento melhoraram, bem como 61% dos pacientes que sofriam de metaplasia antes do tratamento. Nos 48 pacientes em quem a erradicação não foi bem sucedida não se verificaram alterações histológicas significativas.

 

9

Coorte

66 pacientes *

antes do tratamento, 5 semanas depois e 1 ano depois do tratamento

danificação do epitélio do estômago e gastrite

 

Os valores médios iniciais de actividade, inflamação, atrofia, metaplasia intestinal e os níveis de H. pylori eram maiores no antro do que no corpo ou no fundo. A erradicação de H. pylori resultou num melhoramento do nível inflamatório médio do antro (verificado por biópsia) de 2.23 antes do tratamento para 1.32 e 1.06, respectivamente, 5 semanas, e um ano depois do tratamento. Valores correspondentes para a biópsia de espécimens do fundo foram 1.30, 0.36 e 0.35. Valores de actividade melhoraram de 1.42 antes do tratamento para 0.13 e zero, respectivamente, 5 semanas e um ano depois do tratamento em biópsia ao antro, e de 0.60 antes do tratamento para zero especímenes identificados na biópsia ao fundo. Antes do tratamento, o dano epitelial estava presente em 51% das biópsias do antro, e 23% das do corpo. 5 semanas depois da erradicação da H. pylori, nenhuma das biópsias revelava evidência de dano epitelial.

 

10

Ensaio clínico

35 pacientes dos Departamentos de Hematologia e de Patologia da Universidade de Parma (Itália)

antes do tratamento, 6 meses depois e 12 meses depois do tratamento

gastrite atrófica do corpo do estômago e parâmetros morfofuncionais do estômago

 

Seis meses após o tratamento, 25 dos 32 pacientes estavam curados (78%). A cura da infecção foi associada com o melhoramento de basal (ácido basal com valores médios 0.23 ± 0.14 mmol/h vs. 1.75 ± 0.7 mmol/h, P< 0,005) e da secreção estimulada de ácido (níveis médios dos valores máximos de secreção 3.0 ± 1.06 mmol/h vs. 16.6 ± 4.1 mmol/h, P= 0,0017), assim como uma redução na hipergastrinemia (níveis médios gástricos 444.1 ± 110.7 pg/L vs. 85.3 ± 28 pg/mL, P<0,005). Em contraste, a erradicação não teve algum efeito na atrofia corporal e metaplasia intestinal, nem nos níveis de pepsinogénio I (valor médio 16.6 ± 2.9 ng/mL vs. 14.2 ± 2.1 ng/mL, N.S.). Estes resultados foram confirmados 12 meses após erradicação. Uma correlação estatística inversa foi obtida (r=-0.3635, P<0,005) entre a infiltração crónica corporal e os valores máximos de ácido. Um total de 35% da atrofia corporal de pacientes com gastrite mostrou uma regressão na severidade da alteração do corpo da célula ECL.

 

11

Coorte

63 pacientes *

4 anos

Gastrite atrófica. Metaplasia intestinal

 

Não se verificou uma mudança significativa na metaplasia intestinal ao nível do antro durante os 4 anos de seguimento. A atrofia no antro diminuiu significativamente entre o 1º e o 3º anos de seguimento. Sumariamente, para que a mucosa gástrica volte ao normal após a erradicação da H. pylori, são necessários 3 a 4 anos embora alguns agregados linfáticos persistam após esse período.

 

12

Coorte

122 pacientes *

18 meses

 

Gastrite Atrófica, Metaplasia intestinal e Gastrite Crónica

 

A erradicação de H. pylori atingiu 31% dos pacientes; os níveis correspondentes à gastrite crónica desceram progressivamente após a erradicação de H. pylori; os níveis correspondentes à gastrite crónica activa melhoraram também de forma progressiva após a erradicação. Contudo, não se verificaram mudanças na atrofia e metaplasia intestinal.

13

Ensaio clínico randomizado

567 indivíduos provenientes de 11 povoações rurais de Yantai, na província de Shangdong

1 ano

Atrofia e metaplasia intestinal

 

No grupo de indivíduos infectados com H. pylori, a biópsia do antro mostrava uma gastrite aguda mais pronunciada (P=0.01) enquanto que os especímenes do corpo mostravam uma gastrite aguda e crónica aumentada (P <0.001) e um aumento marginal na gastrite atrófica (P=0.052). Diminuição na gastrite aguda e crónica foi mais frequente depois da erradicação de H. pylori (P <0.001) mas mudanças na metaplasia intestinal foram semelhantes. No grupo infectado pela H. pylori, notou-se um aumento de gastrite atrófica no corpo (P= 0.01).

 

14

Ensaio clínico

100 pacientes *

1 ano

Gastrite crónica

 

Durante o tratamento, a actividade inflamatória no grupo que apresentava infecção persistente de H. pylori aumentou no corpo e diminuiu no antro (P=0.032 e P=0.002, respectivamente). Em contraste, o grupo no qual H. pylori foi erradicado, a actividade da inflamação crónica no corpo e no antro diminuiu (P«0.0001). A diminuição da actividade e da inflamação crónica no corpo difere significativamente comparando com o grupo que apresentou persistência de H. pylori. Nos resultados relativos à atrofia, não foram observadas diferenças entre os grupos nos quais a H. pylori foi erradicada ou permaneceu, durante um ano de seguimento. Não foram observadas mudanças no grupo de controlo com H. pylori negativo.

 

Tabela 1

_____________________________________________________________________________________________________________________

* Não foi referido no artigo a proveniência dos indivíduos

          

Uma vez reunidos os resultados dos diversos estudos, foi necessário analisá-los estatisticamente. Definiram-se, então, duas linhas estratégicas de análise:

 

1)                 Avaliar e comparar o efeito da terapêutica de erradicação de Helicobacter pylori na evolução dos diferentes tipos de lesões pré-neoplásicas.

            Neste contexto, desenhou-se o gráfico seguinte:

Figura 2. Percentagem de estudos que, referindo uma determinada lesão, consideraram que a erradicação de H. Pylori contribuiu para a sua melhoria. ( nt = número total de artigos; nm = número de artigos em que se verificou melhoria da respectiva lesão )

 

nm1: Artigos  1, 5, 7, 8, 9 e 11                                           nt2: Artigos  1, 5, 7, 8, 9 e 11

nt1:  Artigos  1, 4, 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 14                    nm3: Artigos  1, 7, 8 e 9

nm2: Artigos  6, 12, 13 e 14                                               nt3: Artigos  1, 3, 4, 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 13

 

2)                 Avaliar e comparar o efeito da terapêutica de erradicação de Helicobacter pylori na evolução das lesões pré-neoplásicas tendo em conta o tipo de estudo analisado – ensaio clínico randomizado, ensaio clínico e estudo de coorte;

 

            Neste contexto criou-se a seguinte tabela:

 

 

Tipo de lesão pré-neoplásica

Gastrite crónica

Gastrite atrófica

Metaplasia intestinal

 

Melhoria

Não melhoria

Total de estudos

Melhoria

Não melhoria

Total de estudos

Melhoria

Não melhoria

Total de estudos

Tipo de estudo

Estudo de coorte

2 *1

0

2

4 *4

2 *7

6

2 *9

4 *12

6

Ensaio clínico

1 *2

0

1

1 *5

2 *8

3

1 *10

1 *13

2

Ensaio clínico randomizado

1 *3

0

1

1 *6

0

1

1 *11

1 *14

2

Tabela 2

 

*1 Artigos  4 e 6                                      *8 Artigos  10 e 14

*2 Artigo  14                                           *9 Artigos  7 e 9

*3 Artigo  13                                           *10 Artigo  8

*4 Artigos  5, 7, 9 e 11                            *11 Artigo  1

*5 Artigo  8                                             *12 Artigos  3, 4, 11 e 12

*6 Artigo  1                                             *13 Artigo  10

*7 Artigos  4 e 12                                    *14 Artigo  13

 

 

            A tabela demonstra a distribuição das lesões pelos diversos tipos de estudos analisados e o resultado que a erradicação de H. pylori teve na sua evolução (melhoria ou não melhoria). Pode verificar-se que os estudos de Coorte se debruçam maioritariamente sobre a gastrite atrófica e metaplasia intestinal enquanto que os Ensaios clínicos e os Ensaios clínicos randomizados aproximadamente pelos três tipos de lesão.


            Em relação aos estudos de Coorte foram analisados 8 artigos num total de 13. Destes, 4 demonstraram que a erradicação de H.pylori é eficaz na melhoria de qualquer lesão pré-neoplásica, em 2 a erradicação apenas permitiu um melhoramento da atrofia gástrica, nos restantes 2 a erradicação da bactéria não teve qualquer efeito no melhoramento das lesões. Em relação aos Ensaios Clínicos foram analisados 3 artigos, dos quais 1 demonstra uma eficácia total da erradicação de Helicobacter pylori na melhoria das lesões e em 2 esta mesma erradicação não teve qualquer efeito. Em relação aos Ensaios Clínicos randomizados, foram analisados 2 artigos. Destes, em 1 houve uma eficácia total na erradicação de Helicobacter pylori na melhoria das lesões e no outro não houve qualquer efeito no melhoramento destas.